Quarta-feira, 7 de Maio de 2008
O Pelicano
O Pelicano levantou voo lentamente, como grande que é, coando a luz do entardecer pelas suas asas majestosamente abertas ... Nas suas garras levava a cria humana que lhe serviria de sustento ... Oh, como tinha sido bom arrancá-lo dos braços titubeantes da mãe ao mesmo tempo que o pai o tentava atingir com a sua arma enferrujada de canos cerrados ... O Pelicano levantou voo lentamente, majestosamente , embalado pela doce melodia que se soltava da criança palpitante, mas não, ainda não seria o auge do seu choro crepitante ... Esse, teria de esperar mais uma centena de metros, umas batidas de asas para que a altura fosse apropriada a uma morte fatal ... Lá à frente  já se desenham os penhascos, ei-los que se aproximam com os seus dentes aguçados sedentos do vermelho sangue, como o vermelho do pôr do sol ... É agora, o Pelicano abre as suas tenazes vigorosas e a cria humana fica suspensa no ar, somente por uns breves instantes, antes de se precipitar sofregamente pelos trinta e sete metros que a separam da carícia da rocha ... Sim, eis o auge, o cume do desespero e da incompreensão que aqueles pequenos pulmões cantam aos quatro ventos ... Por fim, a rocha, o baque surdo dos ossos ainda moles a partirem-se ante a omnipotente gravidade ... O penhasco fica saciado, a cria humana não mais chorará as misérias que a vida lhe reservaria, o Pelicano pode finalmente deleitar-se com o seu belo manjar ensanguentado ... Tudo está bem quando acabe bem ...

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07-05-2008@02:45


publicado por mm às 19:22
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Sábado, 5 de Abril de 2008
Intelecto
Lá fora os pássaros cantam,como que parecendo ouvir a música debitada pelo meu aparelho poeirento ... Tenho sono e contudo não quero dormir ... Quero esforçar o corpo, levá-lo aos limites das suas capacidades para me tornar mais humano ... Quanto mais longe da carne, mais perto do intelecto ... Por isso bebo e fumo demasiado, para tentar enfraquecer a terrível prisão que me limita às leis físicas ... Poderia saltar deste sétimo andar mas isso seria batota ... Seria, além do mais, derrota, permitir que o animal amedrontado e exausto vencesse ... Não, assim não será ... Ganharei pela erosão contínua, pela monotonia monocórdica das minhas inacções e, assim, acabarei por vencer ... Seremos os dois destruídos é certo ... Sou uma consciência sem corpo ... Mas não sou nada sem ele ... No fim restar-me-à o doce prazer de te ver apodrecer, erodido pelas leis naturais e, então, no último acto da nossa terrível comunhão imposta cessaremos os dois ...

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29-03-2008@05:34


Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008
Arte
Manuel bebeu mais um trago do garrafão e acendeu a mesma beata pela décima terceira vez ... Há já três dias que era alimentado pelo fumo e pelos vapores do álcool ... Que diferença fazia ? Há sua frente um cão procurava alguns restos por entre o lixo espalhado pela viela ... Qual era a diferença entre ele e aquele cão tinhoso ? O cão comia, dormia e copulava quando podia ... Um dia atrás do outro ... Manuel infelizmente não tinha essa sorte ... Bebia e só comia de vez em quando, e pouco ... Cópula ? Nem ve-la ... Ninguém se aproximava dele ... Os transeuntes desviavam-se dele como  de uma poia de cão ... apavorados pela sua condição humana ... A chuva intensa tinha arrastado o que restava da refeição do cão para a sarjeta ...  Este uivou e prossegui na  sua busca incessante por algo que sustivesse a  sua miserável existência ... Manuel embora reduzido à mais baixa condição havia passado o bucólico 'limiar da pobreza'  há muito ...  Contudo rejeitava  comparar-se àquele cão cuja vida era comer, copular e dormir ... Manuel repudiava isso ... Passava dias e dias sem comer, primeiro porque não tinha e depois porque odiava fazê-lo ... Não queria ser um animal ... Manuel lembrava-se vagamente do  deu tempo de juventude em que também não comia ... mas pintava e devorava livros incessantemente ... Na sua busca ávida pelo conhecimento ... na procura sequiosa da arte e na tentativa de se divinizar tornando-se mais humano, tinha esquecido «os princípios básicos da vivência em sociedade» diziam eles ... Tinha parado ali, naquela viela escura e que não aparecia em nenhum mapa turístico ... Naquela viela que era o antro dos cães e gatos rejeitados ... tal como ele ... Contudo Manuel não se sentia triste ... Manuel era divino ... desprezava todos os empecilhos animais ... a correria para ser o mais forte ou o mais rico com o único objectivo de agradar à fêmea ... Não, Manuel era divino ... sábio ... que mais precisava ele ? Livros, só livros que de vez em quando surripiava do armazém da biblioteca municipal .... simplesmente sonegados do espólio público, sofregamente devorados e lá recolocados de novo ... misteriosamente ... Manuel era rico ... divino ... Tinha-se despojado de tudo para se entregar ao conhecimento e à arte ....ou à sua fruição pois não tinha meios de a criar, excepto quando escrevia uma prosa nas costas de um pacote de vinho ...De vez em quando ia colocar-se à janela do museu, deleitando os sentidos antes de ser expulso rudemente pelo estúpido segurança ... Manuel era feliz, completo, tinha compreendido o sentido da vida, vencendo completamente o lado animal ...Antes de se aconchegar na sua cama de papelão acendeu a beata pela décima quarta vez, terminou o garrafão e deitou-se feliz ... Amanhã o museu tinha uma nova exposição ...

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28-01-2008 @ 03:23


publicado por mm às 11:59
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Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2008
Soberba
Narciso detestava-se ...Cada vez mais, pensava ele ao caminhar pela multidão opaca e indiferente ... Movia-se devagar, desajeitadamente; como uma preguiça que cai de uma árvore e lá tenta voltar, vergado ao peso do seu corpo balofo, disforme, flácido ... Ao passar por uma montra resplandecente teve um vislumbre do seu rosto no vidro cristalino ... Narciso detestava-se ... Era feio, o queixo pronunciado, o maxilar repuxado para a frente fazia-o relembrar um primata ... O nariz adunco, de bruxa, salvo pela falta de verruga causava-lhe inúmeros problemas respiratórios ... Narciso detestava-se .... Tinha os olhos pequenos, muito juntos, tão juntos que pareciam cruzar-se .... E eram castanhos, do mais vulgar castanho que há ... Passou a mão pelos cabelos, como que instintivamente, e sentiu aquele tufo informe deslizar-lhe por entre os dedos; muito concentrado aqui, esparso, quase careca acolá ... Narciso detestava-se ... Continuou a descer a rua tendo de passar por baixo de uma escada que os operários ali tinham colocado ... Não precisara de se baixar, era mais largo do que alto ... Ao virar à direita deparou-se com a nefasta publicidade na fachada do prédio que captava a atenção dos transeuntes ... Uma loira, sorridente, esculpida pelo mais hábil artista grego parecia fixá-lo, destacá-lo ali no meio da multidão, tentando impingir-lhe uma banalidade qualquer que segurava na mão ... Não, aquela loira não era feliz também, somente se vendia por uma maquia superior à das prostitutas para criar o desejo no comum dos mortais, tão abjecto afinal, como ela ... Narciso nunca poderia esta ali, exposto como uma raridade, nunca poderia pertencer á moderna sociedade do parecer ... Narciso amava-se ....

15-01-2008 @ 09:01


Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008
Imortalidade
Caim matara ... Estava terminado ... Tinha por fim alcançado o almejado Poder ... Perdera a noção de palavras como caridade, humildade e perdão substituindo-as por preserverança, implacabilidade, vingança e orgulho na sua superioridade ... Deixara para trás muita coisa, muita destruição e espíritos inferiores quebrados! Que importava ? Já nada importava senão o seu triunfo ... Esperança ? Palavra horrível, apanágio dos incapazes que esperam resolver os problemas magicamente, sentados no sofá enquanto contemplam inutilmente ícones de pedra ... Caim lutara, arriscara e vencera; tendo agora a cabeça calva do mundo debaixo dos seu pé direito contemplando; mais uma vez; o seu triunfo e; aqui ou ali uma aldeia arrasada ... Que importava ? Tinha tomado uma óptima refeição e sentia-se melhor que nunca, olhando com escárnio para répteis lá em baixo que gostavam de se chamar humanos ... Caim nunca compreendera a sua lassidão, a sua ambição oculta num sorriso que estende o cobre ao desgraçado que arrasta o cadáver debaixo da chuva cortante ... Caim nunca dera nada ... Se necessário trocava ou extorquia ... Se não tivesse interesse ignorava como o transeunte que se desvia de um cagalhão no passeio ali deixado no meio no seu caminho ... Assim podia prosseguir sempre, vencendo e triturando, delineando firmemente o seu caminho ... Caim nunca acreditara em nada para além de si ... Olhava agora para a nova fronteira a arrasar sabendo que quando perde-se ficaria o seu legado, gravado a ferro e fogo no coração odiento dos adversários, o único sítio onde podia ser de facto imortal ....

28-12-2007 @ 02:55

publicado por mm às 07:23
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Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2007
Fobia
Herberto olha pensativamente para a intersecção branca das paredes do seu quarto com o tecto... Está com medo ... Tem os joelhos magros unidos, treme tingido de frio apesar do cobertor Weatherbeeta que lhe deram o mês passado pelos anos. Está deitado há três horas e ainda não adormeceu. Helena deixou-o ... Tem medo ... Levanta-se veste o robe púrpura e dirige-se para a porta da rua carregando às costas os seus pulmões enegrecidos ... Quer ir até à rua, ver o céu e a luz pálida da civilização que dorme ao longe ... Estaca ... Uma cadela magra ladra lá ao fundo ... lá muito ao fundo ... Tem medo ... Levanta o olhar e comtempla, com terror, a ignóbil ombreira da porta debruada a mármore gelado que reflecte a lua cheia através do vidro ... Tem medo ... Já não vai sair ... Vai até à janela acende um cigarro com o seu isqueiro e olha aquela cara amarela que o contempla lá ao fundo, a muitos e muitos quilómetros de distância ... Sente-se como ela, morta, pequena, condenada  a dançar monótonamente com a Terra que a prende num abraço poderoso .... Sente-se como ela, só notada por um brilho que não é seu e que se limita a reflectir ... Helena apagou-se; Herberto já não brilha ... Observa pela última vez a cara amarela por entre um novelo de fumo que sái dos seus pulmões agora mais pesados; ainda ... Volta ao quarto, a tremer de frio pega na sua caneta Fountain e começa a escrever ... Herberto olha pensativamente para a intersecção branca das paredes do seu quarto com o tecto...

23-12-2007 @ 02:43
 

publicado por mm às 02:52
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No princípio era o verbo.

Todas as grandes viagens começam por um pequeno passo...

publicado por mm às 02:36
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